sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cachoeiro é anormal




"Tudo o que nos separava subitamente falhou", Rubem Braga

Não estou aqui para falar do calor ou do trânsito insuportável. Isso é normal, corriqueiro. Cachoeiro de Itapemrim-ES é uma cidade privilegiada. Chega a ser anormal, no sentido de fugir do que é considerado comum, principalmente em se tratando de cultura e leitura, como é o caso aqui nestas linhas.

Um celeiro de escritores torna a “Atenas Capixaba” diferente. Em janeiro, seu maior representante internacional, se estivesse vivo completaria 100 anos. Rubem Braga. E o que fazer com tamanha responsabilidade com relação ao centenário do pai da crônica moderna? É o que já se discute nos círculos de agentes culturais.

Voltando a questão da anormalidade cachoeirense, vejamos uma constatação nacional: o brasileiro não lê. Isso é um fato, mas cabem interpretações. Esse retrato do quadro de leitores é da Unesco.

Onde a leitura é presente há que considerar alguns pontos, por exemplo: ler é uma tradição nacional ou o hábito vem de casa. O que não acontece na maioria do território nacional.

Os exemplos que a juventude segue como as celebridades, que saltam do analfabetismo a televisão sem vasculhar sequer uma biblioteca é um fator a ser considerado. E ainda a própria escola tem sua parcela de culpa nesse cartório.

Cachoeiro, apesar da pulsante atividade literária e cultural, também é refém dessa arcaica forma de ensinar nas escolas públicas. Conforme o Instituto Pró-Livro, os professores costumam indicar livros clássicos do século 19, maravilhosos, mas todos sabem que não são adequados para a maioria dos jovens de 15 anos.

Citei a cidade porque ainda não entendo o motivo pelo qual as escolas, sejam da rede pública ou privada, ainda não adotam livros de escritores locais. Não digo isso para autopromoção, mas se perguntarem a maioria quem é Rubem Braga garanto que muitos não saberão responder. Há também escritores modernos e premiados, não só em nossa cidade, mas de outros municípios e estados que podem estimular a leitura dos adolescentes.

Todo esse rodeio é para alertar os educadores e formadores de opinião sobre o centenário do “Sabiá” que está próximo. Por que não adotar livros de Rubem em todas as escolas e estimular os alunos a escreverem sobre a cidade no ano de seu centenário?

Teremos a Bienal Rubem Braga (se Deus quiser) em 2014. Uma “pré-bienal” pode ser realizada com artistas locais e com custos infinitamente inferiores aos utilizados nos últimos eventos. Bastam todos (poder público, escritores, atores, professores) unirem-se para que isso aconteça. Em resumo, força de vontade.

Já disse e repito. Cachoeiro é anormal e seria mais interessante se começássemos a valorizar ainda mais a nossa gente, que tem semelhante ou até maior capacidade que muitos atores, escritores, jornalistas, professores e celebridades que vemos fabricadas da noite para o dia por aí.

Já que somos diferentes, então vamos fazer a diferença!