segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sorria, você está sendo ameaçado





"Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo", Michel Foucault.

por Roney Moraes*


O ser humano tornou-se um doente panóptico (num conceito de métodos tecnológicos de observação e monitoramento social). Um observador full time. Essa definição, que chega ser uma patologia, é estudada por Michel Foucault em sua obra “Microfísica do Poder”.

“A vigilância é uma maneira de se observar à pessoa, se esta está realmente cumprindo com todos seus deveres – é um poder que atinge os corpos dos indivíduos, seus gestos, seus discursos, suas atividades, sua aprendizagem, sua vida cotidiana. Podem ser encontradas em várias entidades estatais, como hospitais, prisões e escolas. Foi criado até um sistema chamado panóptico para facilitar essa vigilância”.

Hoje, a necessidade de vigilância ao extremo chegou até a sala de aula, onde câmeras permitem, em algumas escolas, que os pais observem o desempenho de seus filhos pela internet. O efeito é a adequação da postura. A pessoa, sabendo que está sendo vigiada, não age naturalmente.

“A relação entre vigiar e punir está no fato de que com ela seria possível adestrar as pessoas para que estas exercessem suas tarefas como bons cidadãos, evitar o máximo que as pessoas infringissem as normas estabelecidas pelo poder, estas ideias podem ser retiradas do livro de Foucault”.

Não há autenticidade quando se é vigiado, portanto os chamados realitys, na verdade, são teatralizações conscientes de pessoas que se sujeitam a tal tipo de exposição pública. Os slogans “A vida como ela é” e outras são meras chamadas publicitárias mentirosas e sem nenhum princípio de realidade. A verdade está na privacidade.

Deveria ser assim. Evitar as câmeras para agir normalmente e não seguir conforme o que os outros (vigilantes) esperam. O exemplo disso são casais que na intimidade dormem em quartos separados e para a sociedade são felizes e leais. Ou pais que abusam dos filhos, moral e fisicamente, e fora de casa os tratam nos padrões considerados normais.

Agora, convenhamos, o reality é o limite da doença do panóptico, tanto para quem se propõe a ser observado e, principalmente, quem perde tempo observando comportamentos reprimidos na ilusão de que sejam reais. Um dos efeitos é a disseminação da paranoia como forma de vida e de pensamento.

Há um prazer na privacidade e as pessoas estão perdendo isso. O encontro, a intimidade... E essa perda já causa sérios danos ao indivíduo, que, por saber que está sob constante vigília, reprime seus afetos. É ameaçador. Ainda mais quando explícita na frase “sorria, você está sendo filmado”.  Quem, em sã consciência ri de uma ameaça? Eu não.

*Jornalista, editor do portal folhadoes.com, psicanalista, professor  e cronista membro da ACL.